Cura
Se olharmos os eventos da criação com mais detalhe, é impossível deixar de perceber uma diferença chave entre a maneira que Deus criou os seres humanos e as outras criaturas. Ele falou, e tudo apareceu, existindo sem mais outra palavra. Mas eis a grande diferença– Deus se ajoelhou no barro, e com as mãos formou um corpo perfeito. Assim, Ele nos introduziu ao poder criativo e curativo do toque. Após a queda, o inimigo perverteu o poder do toque, usando-o para infligir a dor, também transmitir os sentimentos do ódio, nojo e desejo imundo.
Há uns anos atrás eu me reencontrei com uma amiga da minha adolescência. Vamos chamá-la Nicole. Havia muito tempo desde a última vez que nos encontramos, e o evento que nos uniu providenciou um ambiente legal pra ver-nos de novo. Não pude deixar de notar como nós havíamos crescido e madurecido desde a nossa infância. Nicole tornou-se uma mulher bonita, mas havia algo que ainda não era resolvido... essa coisa... uma inquietude... algo que fazia muito difícil lidar com ela quando éramos crianças. Não mudou, ao contrario, se intensificou. Por ter passado bastante tempo enfrentando meus próprios problemas, eu já estava familiarizado com como a desordem interna se manifesta nas trejeitos sociais da pessoa atingida. Escolhi entrar num diálogo com Nicole, com pretensões de saber mais. É importante que a nossa cultura caribenha jamais nos deu chance para pausarmos e sermos seres emocionais. Uma pessoa seria considerada fraca se ousasse se identificar com suas emoções. Eu só posso imaginar que este costume de sentir mas não reconhecer as emoções veio da época colonial quando nossos antepassados escravizados passavam tantos horrores que não havia tempo nem oportunidade de catalogar sentimentos. A sobrevivência exigiu uma face fria.
Na conversa entre Nicole e eu, chamei a sua atenção às normas disfuncionais da nossa cultura, e como nos atingiram. As pessoas (até na igreja) que se metiam na fofoca, a desconfiança que nos detinha de encontrar apoio nos outros durante os momentos mais difíceis das nossas vidas. Eu já sabia dos namoros fracassados de Nicole. A desesperança que resultava em escolhas absurdas, fugindo dos braços dum amante pra outro. Consciente dos tempos nos quais vivemos, e após ter perdido 3 amigos aos braços gelados da AIDS, lhe disse, “Nicole, você tem que ir devagar... melhor, pare completamente. Você está brincando com fogo, e é quase impossível não se queimar. Não quero perder você assim, querida...”
Seu rosto mudou. Começou a chorar. Estávamos no aeroporto, preparando-nos para voltar para os nossos lares. Eu achava que ela estava lamentando o fato de que íamos ser separados de novo. Honestamente, não tinha pensado que minha palavras iam ter este efeito sobre ela; talvez havia mais na história dela que eu ainda não conhecia. “Não estou tão longe de ti”, sussurrei, tentando acalmá-la. “Não passará tanto tempo antes de nós vermos de novo.”
“Não é isso”, respondeu. “É o que você falou; quando eu era criança, meu pai abusava de mim; talvez eu seja assim por causa disso...”
Naquele momento, vi 20 anos de história diante dos meus olhos, e tudo fez sentido. Seu espírito rebelde. Esse elemento de “vou magoar-te primeiro, antes de tu teres chance de magoar-me” na personalidade dela. Ela estava lutando pra viver após ser introduzida a um mundo de sentimentos adultos sem a sua permissão. O pouco da sua auto-estima que sobrou lhe obrigou a exigir que todos ao redor prestassem atenção a ela, mas o vazio que resultou dos toques imundos de um pai em sua filha deixou Nicole com suficiente depressão que andava no caminho do o auto-ódio, da promiscuidade, e...
Honestamente, essas notícias me chocaram. Eu nem percebi que alguém tão próximo a mim estava passando esses horrores todo esse tempo. É interessante, porque eu consegui entender intimamente. Quando eu era criança, alguém em quem meus pais confiavam me abusou também. Já conheci a realidade de viver em silêncio, protegendo ao perpetrador, temendo que ninguém acreditaria se eu falasse o que aconteceu. Já conheço como a desconfiança te faz afastar dos outros, temendo que se falasse algo, seria mal-entendido. Pior no meu caso, porque sendo um rapaz, eu jamais queria que ninguém me olhasse como um fraco. Embora minha infância e a liberdade de ser uma criança me eram roubadas, Deus me deu forças pra continuar vivendo, embora guardando minha dor em silêncio. A depressão, numerosas noites sem sono, a luta pra amar-me a mim mesmo, e as palavras detestáveis dos outros foram o preço que eu tive que pagar pra ganhar o poder pra falar a Nicole e ao mundo inteiro que há cura nas mãos de Deus.
Todos não reagem a esta intrusão da mesma maneira. Existem inúmeros resultados possíveis em se introduzir alguém à vida adulta tão cedo. Muitos acharão apoio nos braços e corações dos pais e parentes, dando-lhes as forças necessárias pra lutar. Infelizmente, outros não terão essa boa sorte, mas serão sujeitos às palavras insensíveis das pessoas que acham melhor culpar ao vitima do que ao perpetrador. Amigo, hoje te digo, não porque eu li num livro, mas porque eu já vi com meus olhos: Há cura nas mãos de Deus. Essas mãos que formou o primeiro casal, devolveu a visão ao cego e devolveu a vida à filha do centurião, são tão eficazes hoje como eram antes. Eu compus esta musica pra Nicole, pra mim, e pra todos que foram vitimados pelas pessoas que perverteram o poder do toque. Jamais haverá um dia que não lembro o que aconteceu, mas prefiro concentrar a atenção no poder de Deus que me deu a opção de ser completo. Experimente-o! É um toque que anula a dor, um toque que renova corações.
Pais, por favor, tomem mais cuidado com os filhos. Sempre saibam com quem eles estão.
Como Eu quero restaurar
Tua paz e te curar
Tem fé em Mim,
Vê a cura em minhas mãos...